O uso de drones na engenharia: avanços, entraves e regulamentação no Brasil

A nomenclatura “Drone” é comumente utilizada para as aeronaves pilotadas por controle remoto, mas é importante classifica-la tecnicamente. A nomenclatura dada para as aeronaves não tripuladas, usadas para outros fins que não a recreação, é RPA (Aeronave Remotamente Pilotada).

As regras brasileiras relativas à utilização e operação são ditadas pela ANAC - Agência Nacional de Aviação Civil, DECEA - Departamento de Controle do Espaço Aéreo e a ANATEL – Agência Nacional de Telecomunicações, que administra o uso das radiofrequências que possibilita a comunicação entre a aeronave e o controle remoto.

Essas aeronaves estão divididas, pela ANAC, em 3 classes de acordo com o peso máximo de decolagem (PMD), devidamente considerados os equipamentos nela embarcados. São elas:

Classe 1 – RPA – peso máximo de decolagem maior que 150 kg

Classe 2 – RPA – peso máximo de decolagem maior que 25 kg e até 150 kg

Classe 3 – RPA – peso máximo de decolagem de até 25 kg

O conjunto formado pela estação de pilotagem remota, link de comando e controle, aeronave e quaisquer outros componentes embarcados ou que façam parte dela é denominado de Sistema de RPA (RPAS).

Para que uma RPA possa operar é necessário que a mesma esteja devidamente registrada nos órgãos acima mencionados e ao atendimento das regulamentações estabelecidas na Instrução do Comando da Aeronáutica, a ICA 100-40, que trata dos Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas e o Acesso ao Espaço Aéreo Brasileiro e, também, a Circular de Informações Aeronáuticas (AIC n 23/17).

A AIC n 23/17 regulamenta a realização de voos sobre áreas urbanizadas por empresas particulares, desde que elas tenham sido contratadas por órgãos públicos. Para tanto, é necessário que haja um contrato de prestação de serviços e o seguro para garantir eventuais sinistros que possam ocorrer durante o trabalho. Não deve ser esquecido que o voo só poderá ser realizado após solicitação de autorização junto ao SARPAS (Solicitação de Acesso de Aeronaves Remotamente Pilotadas) que foi desenvolvido com o objetivo de ordenar a operação pelos usuários de RPAs dentro do Espaço Aéreo Brasileiro.

Essas regulamentações estão sendo revisadas continuamente para atender as necessidades advindas dessa nova ferramenta, seja por inovações relativas à segurança das aeronaves, por desenvolvimento de softwares e situações vivenciadas na prática. Se estuda, também, a formação de pilotos para esse fim.
Um dos estudos em andamento, atualmente, é a possibilidade da utilização dessas aeronaves em aerolevantamentos urbanos que, acredito, deverá ser mais um passo bastante significativo para a engenharia.

O fato de existir, hoje, uma regulamentação para operação comercial dessas aeronaves é um grande avanço, permitindo respaldo jurídico aos usuários dessa tecnologia que é mais uma ferramenta para uma engenharia em 3 D.

O uso comercial de RPAs é muito novo no Brasil e foi objeto de discussões acaloradas, no meio técnico, sobre a qualidade de resultados, principalmente, pela instabilidade de voo.

Com o desenvolvimento de algorítimos que possibilitaram a correção dessa instabilidade foram conseguidos resultados significativos quanto à precisão, bem como quanto à rapidez na entrega de serviços, tornando essa ferramenta bastante utilizada.

Atualmente, com os sensores possíveis de serem embarcados, podemos desenvolver trabalhos em vários segmentos da engenharia como a elaboração de mapas temáticos, ortoimagens, mapeamento de vegetação, avaliação de áreas degradadas, agricultura de precisão, mapeamento geológico e geomorfológico, modelos digitais de superfície, modelos digitais de terreno, cálculo de volumes, dentre outros.

Outra vantagem do seu uso é reduzir as vistorias de riscos, das quais podemos citar as inspeções em estruturas, instalações industriais, rede de energia elétrica e áreas contaminadas dentre outras.

Para essas atividades existem sensores que são embarcados nessas aeronaves sendo, os mais comuns, os que utilizam as tecnologias RGB, multiespectral, termal e lidar.

Para que tenhamos uma rápida informação sobre onde e como são utilizados esses equipamentos encontram-se elencados, abaixo, os tipos de sensores e suas aplicações básicas.

Câmeras RGB – aerofotogrametria e vistorias

Câmeras multiespectrais - essas câmeras possuem 5 bandas multiespectrais a banda azul que possibilita o mapeamento de águas (estudo batimétrico), a verde que possibilita o mapeamento de vegetação e qualidade da água (sedimentos), a banda vermelho que detecta a absorção de clorofila e diferenciação de coberturas vegetais e a infravermelho próximo que permite o delineamento de corpo d’água, mapeamento geomorfológico e mapeamento geológico;

Câmeras termais – diagnósticos em rodovias e edifícios, distribuição elétrica, monitoramento de processos e instalações industriais;

Lidar - permite mapear praticamente qualquer tipo de ambiente físico.

Nos últimos anos, a utilização de RPAs teve um aumentado significativo sendo, a aerofotogrametria, o sustentáculo desse processo tecnológico, utilizando, na grande maioria dos trabalhos aeronaves de classe 3 ou seja, aeronaves com peso inferior a 25 kg.

Alguns estudos comparativos entre os levantamentos topográficos convencionais e os realizados com essas aeronaves apontaram que os resultados obtidos com essa nova ferramenta são bastante significativos.

Segundo esses estudos, para cada 100 pontos obtidos pelos métodos tradicionais são obtidos 150.000 utilizando imageamento com RPAs e GSD (Ground Sample Distance, na tradução literal significa “Distância de amostra do solo”), de 6 a 10 cm na planimetria e de 12 a 20 cm na altimetria.

Não devemos nos esquecer de que essa tecnologia deve ser usada com o devido conhecimento de operação, de regulamentação, da legislação vigente e do uso consciente de suas limitações.

É certo que as inovações tecnológicas são próprias da engenharia. Não existe inovação sem engenharia e engenharia sem inovação e essa tecnologia é mais uma das ferramentas desenvolvida por ela.

 

Jorge Gebraiel Belaz é Engenheiro Civil e Agrimensor, prof da FEAP, pós graduado em georreferenciamento de imóveis rurais, membro do IBAPE-SP e secretário da APEAESP

 Jorge Gebraiel Belaz é engenheiro civil e agrimensor, prof da FEAP, pós graduado em georreferenciamento de imóveis rurais.