O emprego do bambu na arquitetura e engenharia civil. Uso e aplicação como material construtivo

1 - Introdução

Desde o estabelecimento do Protocolo de Kyoto (1997), um acordo internacional entre os países que integram a Organização das Nações Unidas (ONU), e tem por objetivo diminuir a emissão dos Gases do Efeito Estufa (GEEs) e consequentemente o aumento do aquecimento global, colaborou para que mercado internacional iniciasse a busca por materiais que possam diminuir os custos de produção e minimizar os impactos ambientais, mas que continuassem com a eficiência física e mecânica.

O dióxido de carbono (CO2) é um dos gases que mais causa impactos no meio ambiente, pois se acredita que a emissão desenfreada desse e de outros (GEEs) estão vinculados ao crescente aumento do aquecimento global, que podem ter efeitos catastróficos para o planeta Terra e consequentemente, a humanidade.

A construção civil é um dos campos que empregam mais recursos naturais, tornando-se um dos maiores emissores de gases que geram o aquecimento global, como por exemplo os processos de fabricação e aplicação do cal, cimento e aço que mais emitem os gases causadores do efeito estufa, assim surge a necessidade de materiais renováveis e sustentáveis, nesse caso o Bambu se adequa perfeitamente as condições atuais, pois é um rápido sequestrador de carbono atmosférico e ainda possui características físicas e mecânicas que o torna capaz de ser empregado em estruturas que normalmente são produzidas e construídas com madeira de reflorestamento ou nativa.

No Brasil podemos dizer que o ano de 2011 foi um grande marco na linha do tempo do Bambu, pois ocorreu a criação da Lei n° 12.484/2011, que descreve sobre a (PNMCB) Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu, que incentivou os produtores rurais a designar terras para cultivar esse vegetal, que até então já era há anos amplamente utilizado na Índia, Colômbia e China. No Oriente, o Bambu é conhecido como “ouro verde”, e no Brasil constitui material de pouco valor, não sendo apreciado nas construções de alto padrão.

Muito embora ainda no Brasil não se considere o Bambu como uma saída para problemas relacionados ao meio ambiente e à redução relevante dos recursos florestais, este pode ser considerado e analisado como uma opção ou material alternativo de baixo custo a ser empreendido, sendo que a cadeia produtiva pode favorecer ao Meio Ambiente, gerar empregos no campo e consequentemente renda, bem como evitar a extração e corte de outras espécies de madeira e materiais aos quais pode substituir.

O país possui centenas de espécies nativas e não nativas sendo 34 gêneros e 232 espécies, porém o conhecimento básico de suas características, propriedades e aproveitamentos são escassos, carecendo de uma normatização a cerca dessa madeira, a qual ainda não possui normas na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Com isso, a necessidade de estudos básicos desde histórico, desenvolvimento, cultivo, manipulação de espécies e gêneros, até a consignação de suas amplas características mecânicas e físicas em campo laboratorial, bem como suas inúmeras possibilidades de uso e aplicação que vai desde recuperação de áreas degradadas, passando por fontes de biomassa, matéria-prima para construção civil, mix de fibras para papel e para a indústria têxtil, chegando até os bionanomateriais e entre outras.

2 - Revisão bibliografica

O presente estudo se configurou por meio de uma pesquisa de natureza qualitativa e quantitativa, sendo concretizada a coleta dos dados por meio de análises, ensaios, pesquisa de campo e revisões bibliográficas de artigos científicos, trabalhos acadêmicos, livros e revistas, que examinaram a característica desse material construtivo, apresentando as vantagens e desvantagens do seu uso e suas principais áreas de aplicação.

3 - Histórico do bambu

As plantas são desmembradas conforme a classificação botânica progressivamente em família, subfamília e outras categorias até se aproximar da espécie e do gênero.

Bambu é o nome popular dado a todas as plantas da subfamília Bambusoideae, esta subfamília pertence à família das gramíneas (chamada Poaceae ou Gramineae), ou seja, o Bambu é da mesma família que o trigo, o arroz e a grama.

Atualmente o Bambu é uma tradição nas culturas asiáticas do Japão, China e Indonésia, bem como na América Central e do Sul, principalmente em países como Equador, Venezuela e Colômbia; já no Brasil é um material sem muito valor econômico, cultural ou social, no geral visto como matéria prima pouco nobre e inferior, pois pouco se aplica e explora esse material ecologicamente correto.

Devido as condições climáticas na Europa e Antártica, não é possível sua produção, e esses são os dois únicos continentes que não possuem cultivo e plantação de Bambu, porém a Europa importa as peças pré-fabricadas para utilização em estruturas. Na Figura 1 é possível verificar a distribuição de Bambu no mundo.

Figura 1 - Distribuição de Bambu no mundo 

Figura 1 - Distribuição de Bambu no mundo

Fonte: MORAIS, 2011 apud LÓPEZ, 2003.

 

Atualmente existem aproximadamente 1.250 espécies e 50 gêneros diferentes de Bambus, que geralmente são encontrados com mais facilidades em regiões quentes e com fartas chuvas, ou seja, é comumente localizado em países tropicais e/ou subtropicais.

Nas Américas, o Brasil é detentor da maior variedade de espécies de Bambus nativos com 34 gêneros e 232 espécies (ALMEIDA, 2006). Essas espécies encontradas no Brasil são nativas e não nativas, ou seja, existem espécies que nasceram aqui e outras que vieram de outros países durante a colonização do país. Na Figura 2 é possível verificar a distribuição de Bambu, por estado no Brasil.

Figura 2 - Distribuição de bambu no Brasil

Figura 2 - Distribuição de bambu no Brasil. Fonte: MORAIS, 2011 apud LÓPEZ, 2003.

Fonte: MORAIS, 2011 apud LÓPEZ, 2003.

 

3.1 - Características do Bambu

O Bambu pode ser descrito como arborescente1 , mesmo ele sendo gramínea2, pois algumas espécies possuem algumas características das árvores, como por exemplo, na parte aérea possui: colmos, ramificações e folhas. Na parte subterrânea possui: raiz e rizoma. Conforme demonstra a Figura 3.

Figura 3 - Composição do bambu

 Figura 3 - Composição do bambu. Fonte: MORAIS, 2011 apud NMBA, 2004

Fonte: MORAIS, 2011 apud NMBA, 2004.

Existem Bambus de diversos tamanhos, formas e comportamentos. Os Bambus podem atingir de 10 cm até 35 metros de altura, e se apresentam em várias cores: dourado, verde, preto, amarelo, vermelho, azul, listrado, etc. É possível também encontrá-los em diversos formatos: quadrados, arredondados, com espinhos, entrenós e maciços. De maneira geral os Bambus podem apresentar dois tipos de comportamento: entouceirantes e os alastrantes.

Existem cinco tipos de cura: cura na mata, cura por imersão, cura por banho quente e frio, cura pôr fogo e cura por fumigação. A cura é um fator importante, pois tem por objetivo tornar as peças de Bambu mais resistentes ao ataque de insetos e fungos, que são atraídos pelo amido presente nos colmos do Bambu, conforme demostra a Figura 4.

Figura 4 - Colmos com presença de fungos

Figura 4 - Colmos com presença de fungos. Fonte: DA AUTORA, 2017 800x600px

Fonte: DA AUTORA, 2017.

O tratamento no Bambu é essencial para garantir sua longevidade, durabilidade e resistência, sendo no Brasil o tratamento mais utilizado consiste na aplicação do ácido bórico. Vale observar que, conforme López (2003), “todas as substâncias químicas e processos de tratamento que são usados nas madeiras, podem ser aplicados no tratamento do Bambu partido, entretanto, somente alguns destes são recomendados para colmos inteiros”.

O Bambu é resistente à maioria das doenças e pragas, mesmo assim necessita de aplicação de defensivos agrícolas (fungicidas e inseticidas), porém existe também a hipótese de aplicar fertilizantes como o Boro (contra inseto) e Sulfato de cobre (fungos).

Figura 5 - Tratamento no Bambu

Figura 5 - Tratamento no Bambu. Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Segundo o engenheiro agrônomo Sales (2017), a aplicação desses fertilizantes se dá na seguinte proporção: 1 kg de Boro para 0,5 kg de Sulfato de cobre, diluídos em100 litros de água. A solução pode ser utilizada para quatro ou cinco aplicações. Após o corte deve-se colocar os bambus, então deixa sete dias a base aproveitando a pressão do chilema, vira e mais três dias o topo, conforme demonstra a Figura 6.

Figura 6 - Tratamento em meia imersão

Figura 6 - Tratamento em meia imersão  Fonte: SALES, 2017.Fonte: SALES, 2017.

Autoclave (vaso cilíndrico sob pressão) é um processo de obrigar o acesso do preservativo dentro dos tecidos do Bambu, através de um “coquetel” de produtos químicos preservantes. Esse processo é obtido com a saída do ar contido no colmo. De acordo com Souza (2010), os “Bambus tratados por este processo vão durar por aproximadamente 15 anos em contato com o solo e 50 anos para componentes de edificações”.

Entre o terceiro e o quinto ano de idade do Bambu, o colmo deve ser colhido e guardado coberto em local livre de umidade, devendo a colheita ser realizada de preferência nos meses mais secos, entre maio e agosto.

Para cortar um colmo de bambu, se pode utilizar moto-serra, machado, serrote, ou facão, essas são as mesmas ferramentas utilizadas em corte de árvores.

“O corte deve ser efetuado rente ao solo para espécies alastrantes, pois seu rizoma encontra-se protegido abaixo do solo, enquanto que para as espécies entouceirantes deve ser feito a uns 20 cm acima do solo e logo acima de um nó”, segundo Pereira e Garbino (2002), a Figura 7 ilustra.

Figura 7 - Tipo de corte

Figura 7 - Tipo de corte  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Esses procedimentos de corte adotados pelos autores acima citados, são para evitar que entre água no bambu e apodreça a parte que sobrou do colmo, de forma que esse colmo volte a brotar mais e mais vezes.

O armazenamento e estocagem dos colmos devem ser realizados em galpões, onde os colmos possam ficar empilhados na horizontal, afastado do solo e resguardado da umidade.

Basicamente para uma excelente produção de Bambu, se faz necessário seguir a sequência de tratos culturais, conforme a Figura 8 ilustra.

Figura 8 - Sequência de produção

Figura 8 - Sequência de produção  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

A Lei n.º12.484, criada em 2011 para estimular o plantio e cultivo do Bambu, instituiu a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu (PNMCB). A finalidade é promover a ampliação da cultura do Bambu no Brasil, seja por ações governamentais e empreendimentos privados. Os estímulos consistem no manejo das formações nativas e no plantio de Bambu para a produção de colmos, extração de brotos e obtenção de serviços ambientais, bem como valorização do desenvolvimento socioeconômico regional.

De acordo com Janssen (2000), “A propriedade física que mais influencia as propriedades mecânicas é a massa específica aparente do material por unidade de volume, a qual varia com a qualidade do seu local de crescimento, a espécie, sua posição no colmo, etc.”. O autor apresentou um estudo comparativo de resistência e dureza, em relação à massa específica aparente dos seguintes materiais: aço, bambu, concreto e madeira, a Figura 9 expressa os resultados obtidos.

Figura 9 - Comparativo de materiais

Figura 9 - Comparativo de materiais. Fonte: JANSSEN, 2000

Fonte: JANSSEN, 2000.

Dentre as características do Bambu, é possível sua aplicação em diversas áreas desde agricultura até construção; abaixo algumas de suas aplicações:

A) Agricultura: É empregado na irrigação de lavouras e solos, devido sua estrutura tubular que beneficia a condução de água da fonte até o local da irrigação.

Figura 10 - Irrigação

Figura 10 – Irrigação. Fonte: NUNES, 2017

Fonte: NUNES, 2017.

B) Biomassa: O Bambu é a planta mais hábil para aquisição de hidrogênio. Existem pesquisas de empresas para gerar energia a partir do hidrogênio.

Figura 11 - Biomassa de bambu

Figura 11 - Biomassa de bambu. Fonte: ALIBABA, 2017.Fonte: ALIBABA, 2017.

C) Carvão: De acordo com Ribeiro (2005), “O carvão de Bambu também é produzido por pirólise, da mesma forma que o carvão convencional (madeira). No Brasil, estão produzindo carvão de Bambu em escala piloto, em Alagoas”.

Figura 12 - Carvão de Bambu

Figura 12 - Carvão de Bambu  Fonte: VENTANIA, 2015.Fonte: VENTANIA, 2015.

D) Culinária: O broto do Bambu possui nutrientes como proteína vegetal, aminoácidos, fósforo, fibras, cálcio, vitaminas. A ingestão regular do chá de Bambu estimula os movimentos peristálticos do intestino e estômago, cura e previne doenças cardiovasculares, cânceres, abaixa a pressão sanguínea e a gordura.

Figura 13 - Chá de Bambu

Figura 13 - Chá de Bambu  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

E) Compensado de Bambu: “o laminado de Bambu é produzido em maior escala na Ásia para fabricação de paredes e pisos, sendo que no Brasil as empresas que dispõem deste laminado geralmente importam da China” (FETT, 2005).

Figura 14 - Laminados de Bambu

Figura 14 - Laminados de Bambu  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

F) Construção Civil: “O sistema funciona com pré-moldagem de peças de micro concreto, obtida a partir da mistura de borracha de pneu e Bambu moídos, cal, cimento e areia, adicionada à malha estrutural de Bambu”, segundo (DANTAS et al.,2005). Uso em pilares, colunas, treliças, cúpula geodésica e entre outros.

Figura 15 - Cúpula geodésica

Figura 15 - Cúpula geodésica  Fonte: NUNES, 2017.Fonte: NUNES, 2017.

G) Móveis: No Brasil há pequenas e médias fábricas de móveis de Bambu principalmente feitos de cana da índia.

Figura 16 - Móveis

Figura 16 - Móveis  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

H) Papel: “o papel é o uso industrial do Bambu de maiores proporções no mundo; oferece seis vezes mais celulose que o pinheiro e cresce bem mais rápido. Suas fibras são muito resistentes e têm qualidade igual ou superior à fibra de madeira” (VICTORINO, 2006).

Figura 17 - Papel de Bambu

Figura 17 - Papel de Bambu  Fonte: ALIBABA, 2017.Fonte: ALIBABA, 2017.

I) Têxteis: A fibra de Bambu é reciclada por meio de processos físicos como cozedura, destilação, etc. O tecido é produzido pela técnica de fiação em condição molhada, onde utiliza-se pedaços, polpa fina, celulose e fibra de Bambu para produzir os tecidos.

Figura 18 - Tecido de bambu

Figura 18 - Tecido de bambu  Fonte: MORANT, 2014.Fonte: MORANT, 2014.

J) Outras aplicações do Bambu: elementos de cozinha (colher e garfo); uso paisagístico; objetos decorativos (esculturas, luminárias, cortinas e cestaria); instrumentos musicais (flauta, baquetas de tambores, violões, xilofone e saxofone), embalagens para garrafas, chá e outros.

Figura 19 - Utensílios de Bambu

Figura 19 - Utensílios de Bambu  Fonte: NUNES, 2017.Fonte: NUNES, 2017.

Todos os objetos, materiais, utensílios, móveis, compensados e entre outros que utilizam o Bambu, e ficam armazenados em locais externos, ou seja, ao ar livre, devem receber uma camada de selador. Pois em áreas externas ocorrem as chuvas e muitas dessas vêm acompanhadas de ventos, fazendo com que água da chuva cheguem no Bambu em formato de respingos, além desse fator também existem os raios solares, que atingem o Bambu, e dependendo do posicionamento este pode ficar exposto por várias horas no dia.
A aplicação desse selador também é muito apropriada para o acabamento estético, pois aumenta a beleza natural do Bambu e evita o acúmulo de sujeira, bem como facilita a limpeza. Existem diversos tipos de vernizes, no entanto ainda não foi realizada nenhuma pesquisa científica que recomende o melhor verniz para aplicação no Bambu. O verniz precisa possuir propriedades que consigam penetrar o Bambu, melhorando a parede externa, ao passo que aumenta a durabilidade da peça quanto a possível degradação do material ocasionada pelas intempéries.

3.2 - Histórico de Projetos com Bambu pelo Mundo

Engenheiros e Arquitetos de diversos países redescobriram o Bambu, e começaram a utilizá-lo em grandes e modernas obras privadas e públicas, conforme exemplos a seguir:

• Colômbia: A estrutura interna possui 13.503 peças de madeira, que sustentam o teto da Catedral de Pereira, esta é uma de suas características mais atrativas. As estruturas internas e externas da Catedral são construídas com Bambu.

Figura 20 - Catedral de Pereira na Colômbia

Figura 20 - Catedral de Pereira na Colômbia  Fonte: VÉLEZ, 2002.Fonte: VÉLEZ, 2002.

• Alemanha: O fechamento do estacionamento em Leipzig, inaugurado em 2004, foi todo construído com Bambu. As varas têm diâmetros entre 10 e 12 cm, e estão 7,5 cm separadas umas das outras, o que admite a ventilação do interior.

Figura 21 - Estacionamento na Alemanha

Figura 21 - Estacionamento na Alemanha  Fonte: MARQUES, 2017.Fonte: MARQUES, 2017.

• Brasil: No sul da Bahia, o arquiteto colombiano Vélez construiu casas utilizando o Bambu, a inserção do Bambu típico da Amazônia na Bahia possui um motivo especial, que é promover a sustentabilidade, a casa é construída de Bambu e cimento.

Figura 22 – Edificação no Brasil

Figura 22 – Edificação no Brasil  Fonte: VÉLEZ, 2002.Fonte: VÉLEZ, 2002.

“A energia gasta em MJ para produzir 1m³ de alguns materiais por unidade de tensão são: bambu 30, madeira 80, concreto 240 e aço 1500”, com embasamento nos valores obtidos por Ghavami ilustrou-se a Figura 23, para comprovar o menor consumo de energia em MJ na produção do Bambu, se comparado a alguns materiais convencionais como por exemplo: o aço, concreto e a madeira.

Figura 23 - Consumo de energia por material construtivo

Figura 23 - Consumo de energia por material construtivo  Fonte: Modificado de GHAVAMI, 1990.Fonte: Modificado de GHAVAMI, 1990.

4. Ensaios de compressão no bambu mosô

Os ensaios de compressão foram realizados no Centro Universitário Monte Serrat - UNIMONTE, localizado no endereço: Rua Comendador Martins, nº 52, Bairro Vila Mathias, no município de Santos, dentro do Laboratório de Engenharia Civil.

Os ensaios de compressão são empregados quando se almeja avaliar o comportamento de um material submetido a grandes e permanentes deformações, basicamente este ensaio consiste na aplicação de uma carga compressiva uniaxial, ou seja, uma força axial para dentro, que é disseminada de maneira uniformemente distribuída em toda seção transversal do Corpo de Prova (Tensão = Força/Área).

O primeiro ensaio ocorreu na data 07 de abril de 2017 às 18h:30m; esses Corpos de Prova de Bambu possuem a idade de 2 anos e 5 meses, esses CPs ainda estão verde, in natura3, sem tratamento e os valores obtidos no ensaio estão nas Figuras 24 e 25

Figura 24 - Primeiro e segundo teste de compressão axial

Figura 24 - Primeiro e segundo teste de compressão axial  Fonte: Da Autora, 2017.Fonte: Da Autora, 2017.

Figura 25 - Terceiro e quarto teste de compressão axial

Figura 25 - Terceiro e quarto teste de compressão axial  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Com os valores obtidos no primeiro ensaio de compressão, utilizou se as áreas e diâmetros das peças, para chegar ao valor dos testes em MPa que é a unidade de medida padrão em ensaios de Corpos de Prova (CPs), conforme a Tabela 1.

Tabela 1 - Transformando tf em MPa no primeiro ensaio

Tabela 1 - Transformando tf em MPa no primeiro ensaio  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Figura 26 - CPs do primeiro ensaio

Figura 26 - CPs do primeiro ensaio  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Os corpos de prova desse primeiro ensaio, possuem as seguintes dimensões: 17cm de comprimento e 8,5cm de diâmetro externo e 6,5cm de diâmetro interno.

O intuito de utilizar duas dimensões distintas de corpos de prova, foi para avaliar qual das peças suportam uma maior carga de compressão.

Com as diversas características como: dimensões, tratamentos e idades, será possível obter os melhores dados para elaborar um CP ideal para os futuros ensaios de compressão no Bambu Mosô. O segundo ensaio ocorreu na data 27 de abril de 2017 às 17h:00m; esses Corpos de Prova possuem a idade de 3 anos e 2 meses e os valores obtidos no ensaio estão nas Figuras 27 e 28.

Figura 27 - Primeiro e segundo teste de compressão axial.

Figura 27 - Primeiro e segundo teste de compressão axial.  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Figura 28 - Terceiro e quarto teste de compressão axial

Figura 28 - Terceiro e quarto teste de compressão axial  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Com os valores obtidos no segundo ensaio de compressão axial, mais os valores dos diâmetros das peças de Bambu Mosô, foram obtidas as áreas, e com isso foi possível chegar aos valores dos testes em MPa (Mega Pascal) que é a unidade de medida padrão em ensaios de Corpos de Prova (CPs), conforme a Tabela 2.

Tabela 2 - Transformando tf em MPa no segundo ensaio

Tabela 2 - Transformando tf em MPa no segundo ensaio  2.1 Fonte: DA AUTORA, 2017.2.1 Fonte: DA AUTORA, 2017.

Figura 29 - CPs do segundo ensaio

Figura 29 - CPs do segundo ensaio  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Os corpos de prova desse segundo ensaio, possuem as seguintes dimensões: 20cm de comprimento e 10cm de diâmetro externo e 8cm de diâmetro interno.

Após os ensaios de compressão axial, foi possível observar que durante o carregamento axial, o corpo de prova não apresentou redução de altura, em contra partida houve a saturação das peças de bambu em sua maioria nos colmos e nas paredes externas, as quais são possíveis visualizar os pontos em que os corpos de provas romperam no momento aplicação de maior carga axial.

5. Resultados e discussão

Este capítulo tem por objetivo detalhar e organizar os dados coletados no transcorrer dos ensaios realizados nos CPs. Com a finalidade de responder ao objetivo proposto. Na primeira parte apresentou-se os Gráficos referentes aos ensaios de compressão, e na segunda um Gráfico comparativo referente as idades dos CPs ensaiados.

5.1 - Resultados dos ensaios de compressão

Com base nos dados obtidos nos ensaios de compressão realizados, foi possível obter os valores de resistência a compressão e com este elaborou-se um gráfico conforme a Figura 30 ilustra. Esses CPs possuem dois anos e cinco meses.

Figura 30 - Resultado do primeiro ensaio

Figura 30 - Resultado do primeiro ensaio  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

A curva média de tensão x deformação do primeiro ensaio, situou-se na faixa 25,04 MPa.

No segundo ensaio de compressão foi possível obter os níveis de pressões e com este elaborar um gráfico conforme a Figura 31 ilustra. Esses elementos dos Corpos de Prova possuem idade de três anos e dois meses.

Figura 31 - Resultado do segundo ensaio

Figura 31 - Resultado do segundo ensaio  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

A curva média de tensão x deformação do segundo ensaio, situou na faixa 89,43 MPa.
Analisando os dados obtidos nos dois ensaios, observou-se que os Bambus Mosô atingiram a resistência mínima necessária, pois segundo MARÇAL apud (LOPEZ, 1974) “A resistência à compressão situa-se na faixa de 20 MPa a 120 MPa”.

5.2 - Análise comparativa de idade

Com dois anos de idade o Bambu é avaliado como imaturo ou “verde”, pois seu material lenhoso ainda se encontra maleável, ou seja, não lignificado . Por isso o Bambu nessa idade, é empregado para cestaria, ou outras aplicações onde sejam necessárias curvar ou tramar o Bambu. Segundo Nogueira (2012) “O colmo do Bambu adequado para uso em artesanato, movelaria e construção é aquele com mais de três anos, considerado maduro. Nessa idade o Bambu está rígido o suficiente (lignificado) para ser utilizado em tarefas pesadas”. Com base nessas informações ensaiou-se CPs com idades de dois e três anos no intuito de averiguar e comprovar cientificamente esta afirmação. O resultado está expresso na Figura 32.

Figura 32 - Comparativo de idades x Resistência (MPa)

Figura 32 - Comparativo de idades x Resistência (MPa)  Fonte: DA AUTORA, 2017.Fonte: DA AUTORA, 2017.

Analisando-se os resultados obtidos e comprando-os, é possível concluir que a idade de maturação do Bambu para aplicar em obras deva ser superior a 3 anos de idade, pois nessa idade sua resistência de tensão x deformação é maior.
O bambu de dois anos e cinco meses está in natura, o que também pode ser relevante no resultado obtido, pois o sem tratamento de defumação e secagem ás fibras ficam com maior quantidade de volume de vazios, enquanto que o Bambu de três anos e dois meses com tratamento de defumação e secagem, possui suas fibras mais juntas e secas, ou seja, o tratamento também pode interferir diretamente na resistência do Bambu Mosô.
Todavia, esses resultados devem ser encarados com certa prudência, uma vez que os fatores de resistência à compressão, além da idade, dependem também do tipo e origem do Bambu, dimensões das paredes internas do CP, teor de umidade da amostra e outras condições de contorno do experimento.

6. Considerações finais

O estudo das propriedades físicas e mecânicas, devem estar em primeira ordem na elaboração e execução do projeto com Bambu, para que assim obtenha-se os resultados desejados e esperados.
Ainda que os estudos abordados nesta Monografia não sejam conclusivos, quanto as propriedades mecânicas e físicas do Bambu, os valores iniciais obtidos vão de encontro com valores expostos em literaturas da China e Colômbia.

A técnica aplicada na confecção dos CPs para ensaios de compressão, tração e flexão, foram adaptadas às NBRs da Madeira e Concreto.

Nos últimos anos vem sendo demonstrado por muitas instituições e pesquisadores independentes pelo mundo afora, que o Bambu possui resistência e durabilidade para ser empregado em procedimento tradicional e contemporâneo, podendo ocorrer a substituição total ou parcial dos materiais habituais, indo de acordo com evidenciado pelos resultados desta pesquisa.

O Bambu pode ser aplicado em colunas, pilares, estruturas, treliças e peças que sejam solicitadas aos esforços de compressão axial, flexão na tração e tração simples. Tendo vista que os resultados obtidos nos ensaios de compressão axial, enquadram-se nas resistências que foram normatizadas para utilização do concreto, sendo a mínima de 25 MPa.

É considerado um material de cunho sustentável pois apresenta baixo consumo de energia em sua produção e gerando poucos resíduos, e renovável pois seu crescimento é rápido após corte e possui alta produtividade por hectare (10.000 m²), bem como se adaptada aos vários tipos de climas e solos brasileiros.

É um material construtivo que permite a preservação do meio ambiente, pois sequestra o gás carbônico (CO²) que é dos gases responsáveis pelo aumento significativo do efeito estufa. O Bambu também protege o solo de erosões na atmosfera, descontaminando solos, na água quando aplicado como carvão vegetal sequestra os hormônios contidos na água, purificando a mesma.

O desempenho do Bambu no âmbito ecológico, revela-se como um adequado recurso a ser aplicado pela Arquitetura e Engenharia brasileira.

Em suma pode-se considerar que o bambu possui resistências para ser empregado em todas as etapas da construção civil, bem como para outras diversas finalidades abordadas neste.

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VÉLEZ, S. CD-ROM: Imagenes SV.exe. Colômbia, 2002.

 

1 - É qualquer planta que toma a forma ou o porte de árvore.

2 - São famílias de plantas com folhas semelhantes a lâminas, a maioria possui caules ocos e muitas raízes ramificadas.

3 - In natura "na natureza" é usual para descrever os alimentos de origem vegetal ou animal que são consumidos em seu estado natural, como por exemplo as plantas.

 

Greice Hellen de Novaes Barbalho é Engenheira civil

 

Greice Hellen de Novaes Barbalho é Engenharia Civil, com experiência em construções com madeiras e obras ferroviárias, atuando no controle de mão de obra e gestão de projetos, acompanhando os custos e prazos pré estabelecidos em prol da organização. Na área de Segurança do Trabalho, com experiência em desenvolvimento de programas como: PGR, PPRA, APR, ASO e entre outros. Realizações de avaliações de risco e novas tecnologias de processos.

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